09/02/2019 11:09

Ninho do Urubu não tinha alvará de funcionamento, diz Prefeitura do Rio Peritos já sabem que o fogo começou num aparelho de ar-condicionado. Ministério Público do Trabalho no Rio criou força-tarefa para apurar causas do incêndio.

A Prefeitura do Rio informou, na noite desta sexta-feira (8), que o Ninho do Urubu não tinha alvará de funcionamento. Faltava um documento do Corpo de Bombeiros. Como o centro de treinamento continuou funcionando, a Prefeitura multou o Flamengo 30 vezes e decidiu interditar o local que, apesar disso, continuou funcionando.

Peritos que investigam as causas do incêndio dizem que o fogo começou no ar condicionado.

As imagens da câmera de segurança do centro de treinamento mostram momentos de agonia. De outro ângulo, é possível ver muita fumaça saindo pelas paredes do contêiner. De repente, as chamas se espalham. Em meio à fumaça e ao fogo, meninos tentam escapar do alojamento pela única porta que existia, mas foi tudo rápido demais. Nem todos conseguiram.

Peritos ouvidos pelo Jornal Nacional disseram que o incêndio tomou todo o alojamento em minutos. "Pelo horário, infelizmente de madrugada ainda, todos provavelmente estavam dormindo e isso pode ter, com certeza, contribuído pra essa tragédia", diz o tenente-coronel Douglas Henaut.

Os peritos já sabem que o fogo começou num dos aparelhos de ar condicionado, do lado esquerdo do alojamento. Houve um curto circuito. Eles dizem que, como os contêineres são uma grande caixa feita de metal, a temperatura aumentou rapidamente. Beliches de madeira, colchões, roupas e livros ajudaram a alimentar ainda mais o incêndio.

No começo da tarde, uma van do Flamengo com atletas chegou à delegacia que investiga o caso. Os investigadores ouviram 13 meninos. A maioria estava no alojamento e escapou do incêndio. Quatro funcionários também prestaram depoimento. Um deles, um segurança que conseguiu tirar três meninos pela janela.

O alojamento onde os atletas morreram não existia oficialmente. A Prefeitura do Rio diz que o centro de treinamento tinha autorização para construir no terreno, mas, no projeto que o Flamengo apresentou para conseguir a licença, a área onde estavam os contêineres aparecia como um estacionamento, sem nenhum tipo de construção. A Prefeitura disse também que o Flamengo nunca registrou um pedido pra usar aquele local como dormitório.

Sobre a fiscalização nesses casos, a Prefeitura diz que só faz inspeção quando recebe denúncia. Mas a situação é ainda pior. A Prefeitura disse que o Ninho do Urubu não tinha sequer alvará de funcionamento. O Flamengo pediu o alvará em setembro de 2017, mas nunca apresentou o certificado de aprovação do Corpo de Bombeiros. O clube foi multado 30 vezes por continuar funcionando sem o alvará.

Em outubro de 2017, a Prefeitura decidiu interditar o local, mas não explicou o que fez, efetivamente, para tomar essa decisão. O CT continuou funcionando à revelia. A Prefeitura do Rio informou que vai abrir um processo de investigação pra apurar as responsabilidades.

O Corpo de Bombeiros diz que o Ninho do Urubu ainda não tem o certificado de aprovação, um atestado de que há equipamentos contra incêndio funcionando. A corporação informa que o Flamengo deu entrada no projeto de segurança contra incêndio em 2010 e que, desde então, tem feito vistorias no local, a última em novembro do ano passado. Mas, segundo os Bombeiros, ainda havia pendências para a emissão do certificado, como mudanças de layout e ausência de dispositivos.

O presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, só apareceu pra falar sobre a tragédia depois do meio-dia. Não respondeu a perguntas nem deu informações sobre as instalações, nem das condições de segurança do local.

"Eu queria dizer pra vocês que, obviamente, estamos todos consternados. Essa é certamente a maior tragédia pela qual esse clube já passou nos ultimos 123 anos, com a perda dessas 10 pessoas. O Flamengo também está colaborando com as autoridades para que, vamos dizer assim, a causa desse acidente, desse incêndio, possa ser apurada. Ninguém mais do que nós tem maior interesse para que isso ocorra. E, por fim, dizer que todos nós aqui do clube estamos de luto. É uma tristeza enorme que a gente tá sentindo. Não é fácil falar pra vocês, obrigado a todos e peço desculpas", declarou.

O Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro criou uma força-tarefa, com cinco procuradores, para apurar as causas e as consequências do incêndio. O Ministério Público Estadual declarou que acompanha os desdobramentos da tragédia.

A Procuradora-geral da República, Raquel Dodge, disse, em Brasília, que é preciso mais rigor na atuação das instituições de controle e fiscalização: "Condolências às vítimas, aos seus familiares e a toda a população brasileira. Porque estamos vendo uma sucessão de fatos que, muitas vezes, são desastres evitáveis, preveníveis, e precisamos estar atentos a eles para que as instituições de controle, fiscalização e punição realmente funcionem no Brasil".

Médicos legistas disseram à nossa reportagem que algumas das vítimas têm sinais de asfixia pela fumaça e que alguns corpos só poderão ser identificados com testes de DNA, o que pode levar semanas.

A investigação vai dizer se houve falhas e se o incêndio poderia ter sido evitado, mas resposta nenhuma vai confortar famílias que sonhavam com o futuro de seus filhos e perderam tudo.

Nós perguntamos para a Prefeitura do Rio por que o centro de treinamento do Flamengo continuava funcionando, mesmo com a ordem de interdição de 2017. A Prefeitura declarou que multou o flamengo 30 vezes e que não tem poder de polícia. Nós não conseguimos resposta do Flamengo.

A Prefeitura do Rio determinou a realização de fiscalização no centro de treinamento de outros dois clubes. Segundo a Prefeitura, o do Vasco da Gama, conhecido como CT das Vargens, não tem registro de pedido de licenciamento para edificações, nem de alvará. O do Fluminense, conhecido como CT Pedro Antônio, também não tem registro de pedido de alvará. Nós ainda não tivemos resposta do Vasco, nem do Fluminense.

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Fonte: JN

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